meu EU. ...amor, beijo.
 
Grito erótico Caluniaste o meu corpo ao longo dos teus gestos sem medida Desde a palavra exacta do meu sexo e soletraste-me puta
Puta Puta
Angustiosamente erótica abri-me em coxas e penetrei-te na minha fauna aquática Grito marinho a escorrer nas algas do meu ventre
Puta Puta.
Manuela Amaral 
Pecado mortal Poemas eróticos são maliciosos sensuais e deliciosamente perigosos.... tal como assistir a filmes pornográficos para acordar monstro hibernando... Fico a pensar o que busco em ti enquanto rabisco desejos, anunciando anseios ao invés de lascar-te um beijo e entregar – aos teus carinhos – meus seios.
Sem rimas fáceis, sem situações previsíveis. Numa intensa crise corre, irresistível, meu frisson por ti incontrolável fúria à tua procura horas a fio, preenchendo meus pensamentos...
Meu amor um momento! Isso é loucura? Paixão? Paranóia? Que situação! Que confusão de sentimentos...
Quando tiveres a resposta tu encontraras a mim, completamente pronta, tonta de desejo por teu beijo, por tua pele escura, tintura de meu ventre que sente que apenas a ti pertence...
Minha pele está entranhada pelo teu cheiro caudalosamente banhada por tua língua que sucumbe a cada investida, revestida por teu suor que impregna minha alma...
Não sou uma mulher, sou parcelas que se juntam e agregam-se num furacão que entra em ebulição, quando tocas cada uma delas: vagina, orelhas, boca, ancas, pernas, pés e mãos...
Neste instante, essas partículas minúsculas, tornam-se uníssonas. Transformam-se num conjunto em busca de delícias da mais pura e gostosa malícia.
Tu és pastor de um rebanho desgarrado e só tu tens o poder de torná-lo gregário. Só tu tens a chave desse universo paralelo Só tu podes desvendar esse mistério...
De corpo furacão, de mulher ebulição, de um ser fragmentado em inúmeras personas: Uma Eva expulsa do paraíso A agregada mais bonita da Senzala Uma cortesã em homenagem a cidadão ateniense Um anjo lascivo, um demônio bandido Uma princesa enclausurada em torreão Uma Galla sem Dali
A cometer crimes, a purgar sacrilégios a pregar teu credo A sofrer em segredo, este mais cruel degredo que é estar longe de ti...
Gueixa 
onde estou... ...sou LaLi
Cantinho da Laranja Lima
Coisas sensuais de LaLi
Florbela Espanca - LaLi
LaLi...mulher...poema
Terra e Mar Musicas
por LaLi

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Satânia ... Nua, de pé, solto o cabelo às costas, Sorri. Na alcova perfumada e quente, Pela janela, como um rio enorme De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis, Profusamente a luz do meio-dia Entra e se espalha palpitante e viva. Entra, parte-se em feixes rutilantes, Aviva as cores das tapeçarias, Doura os espelhos e os cristais inflama. Depois, tremendo, como a arfar, desliza Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve, Como uma vaga preguiçosa e lenta, Vem lhe beijar a pequenina ponta Do pequenino pé macio e branco. Sobe ... cinge-lhe a perna longamente; Sobe ... – e que volta sensual descreve Para abranger todo o quadril! – prossegue. Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura, Morde-lhe os bicos túmidos dos seios, Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo Da axila, acende-lhe o coral da boca, E antes de se ir perder na escura noite, Na densa noite dos cabelos negros, Pára confusa, a palpitar, diante Da luz mais bela dos seus grandes olhos. E aos mornos beijos, às carícias ternas Da luz, cerrando levemente os cílios, Satânia os lábios úmidos encurva, E da boca na púrpura sangrenta Abre um curto sorriso de volúpia... Corre-lhe à flor da pele um calefrio; Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso Apressa; e os olhos, pela fenda estreita Das abaixadas pálpebras radiando, Turvos, que brados, lânguidos, contemplam, Fitos no vácuo, uma visão querida... Talvez ante eles, cintilando ao vivo Fogo do ocaso, o mar se desenrole: Tingem-se as águas de um rubor de sangue, Uma canoa passa... Ao largo oscilam Mastros enormes, sacudindo as flâmulas... E, alva e sonora, a murmurar, a espuma Pelas areias se insinua, o limo Dos grosseiros cascalhos prateando... Talvez ante eles, rígidas e imóveis, Vicem, abrindo os leques, as palmeiras: Calma em tudo. Nem serpe sorrateira silva, nem ave inquieta agita as asas. E a terra dorme num torpor, debaixo De um céu de bronze que a comprime e estreita... Talvez as noites tropicais se estendam Ante eles: infinito firmamento, Milhões de estrelas sobre as crespas águas De torrentes caudais, que, esbravejando, Entre altas serras surdamente rolam... Ou talvez, em países apartados, fitem seus olhos uma cena antiga: Tarde de outono. Uma tristeza imensa Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa Das tamareiras, meio adormecido, Fuma um árabe. A fonte rumoreja Perto. À cabeça o cântaro repleto, Com as mãos morenas suspendendo a saia, Uma mulher afasta-se, cantando... E o árabe dorme numa densa nuvem De fumo... E o canto perde-se à distância... E a noite chega, tépida e estrelada... Certo, bem doce deve ser a cena Que os seus olhos estáticos ao longe, Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam. Há pela alcova, entanto, um murmúrio De vozes. A princípio é um sopro escasso, Um sussurrar baixinho... Aumenta logo: É uma prece, um clamor, um coro imenso De ardentes vozes, de convulsos gritos. É a voz da Carne, é a voz da Mocidade, - Canto vivo de força e de beleza, Que sobe desse corpo iluminado... Dizem os braços: “-Quando o instante doce Há de chegar, em que, à pressão ansiosa Destes laços de músculos sadios, Um corpo amado vibrará de gozo?-“ E os seios dizem: “- Que sedentos lábios, Que ávidos lábios sorverão o vinho Rubro, que temos nestas cheias taças? Para essa boca que esperamos, pulsa Nestas carnes o sangue, enche estas veias, E entesa e apruma estes rosados bicos...-“ E a boca: “- Eu tenho nesta fina concha Pérolas níveas do mais alto preço, E corais mais brilhantes e mais puros Que a rubra selva que de um tírio manto Cobre o fundo dos mares da Abissínia... Ardo e suspiro! Como o dia tarda Em que meus lábios possam ser beijados, Mais que beijados: possam ser mordidos-“ ... ... Mas, quando, enfim, das regiões descendo Que, errante, em sonhos percorreu, Satânia Olha-se, e vê-se nua, e, estremecendo, Veste-se, e aos olhos ávidos do dia Vela os encantos, - essa voz declina Lenta, abafada, trêmula... Um barulho De linhos frescos, de brilhantes sedas Amarrotadas pelas mãos nervosas, Enche a alcova, derrama-se nos ares... E, sob as roupas que a sufocam, inda Por largo tempo, a soluçar, se escuta Num longo choro a entrecortada queixa Das deslumbrantes carnes escondidas... Olavo Bilac - Sarças de Fogo 


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meu EU...nosso amor... em câmara ardente ah a tua boca rubra rútila aberta e úmida túmida a tua língua vívida serpente que se enrosca em minha língua e desliza em minha pele em minhas pernas dentro e entre abro-me primeiro às tuas mãos ainda à língua depois ao falo vara com que me varas a mim que súbito te escapo e sôfrega te busco e te chupo e viro-me de bruços depois de perecer por tua espada frente a frente a ti me ofereço cu e dorso para que me fodas inteira e gozo de ti puta e senhora uma vez mais mais uma vez de novo e sempre Marcia Maia


Teus Olhos Teus olhos me olham longamente, imperiosamente... de dentro deles teu amor me espia. Teus olhos me olham numa tortura de alma que quer ser corpo, de criação que anseia ser criatura Tua mão contém a minha de momento a momento: é uma ave aflita meu pensamento na tua mão. Nada me dizes, porém entra-me a carne a persuasão de que teus dedos criam raízes na minha mão. Teu olhar abre os braços, de longe, à forma inquieta de meu ser; abre os braços e enlaça-me toda a alma. Tem teu mórbido olhar penetrações supremas e sinto, por senti-lo, tal prazer, há nos meus poros tal palpitação, que me vem a ilusão de que se vai abrir todo meu corpo em poemas. Gilka Machado

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para vc...EU que amo...
Espera 1
A pele anseia o toque, arrepia,
transbordando desejos. Lábios e língua antecipam o beijo esperado olhos semicerrados boca entreaberta (delírios!) Sobre os lençóis em desalinho, ela espera (seios que se oferecem, coxas que se contraem) espera. O corpo dela exala as secreções
mais belas ancas de acasalar (tortura!) a mão passeia lânguida no lento passar das horas, como a confortar pele, púbis, pêlos, os dedos procuram consolo, não quer espera. Ainda que a noite esteja deixando seus olhos, espera; ainda que o fogo da lareira se apague, espera. 2
Esta noite quer apenas o homem
que espera, entregar-se a ele, amá-lo por toda a noite como a ninguém, antes. Olhá-lo do modo lindo que inventou, então espera. (O desejo a consome, o contato
dos lençóis na pele nua, as mãos tocando displicentemente os mamilos à luz amarela e frágil da lareira que ilumina o corpo em torturante expectativa) Guarda-se pare ele. Espera.
Porque seu desejo só se realiza no desejo dele, na cumplicidade dos dois fundindo-se, ardentes, executando o mais belo e primitivo ballet 3
(sôfregos, lindos, dançando
lentos, girando, bocas, línguas, mãos, suores, girando o corpo dela em movimentos sensuais de amores ele dentro dela, delírios, para sempre dentro dela a alma o corpo, o amor o olhar lindo que ela inventou paixão, ternura, naqueles olhos tudo o corpo dele sobre o dela o seu beijo a língua a pele as mãos) imagens que ela inventa antes de adormecer. Nálu Nogueira 
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"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido amniótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela." Anais Nin
por LaLi

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Antes que de mim nada mais reste antes que de mim nada mais reste, traga-me de volta o que ainda sinto: uma vontade latejando você; arfares do nosso último momento balbucios à luz da meia-luz; urgências nos desconexos dizeres; calmas nos sentires, nos tocares e os risos de nós dois...
traga-me ou melhor trague-me, aspire-me, transpire-me, é só o que te peço: una-me àquele quando seu. muito? é muito o que te peço? ah, é tão pouco ao tanto quanto sinto... rendi-me à relembrança inda recente, ornamentos que perduram como a palavra sempre. abafadiços do frescor de ainda ontem. queimando-me por dentro, uivando ao desespero, estou a um passo do que posso, opresso, ao preço que mereço. mande-me de volta e com urgência encontre-me por aí um rastro, que seja, do que eu fui: baixo-relevo à tua pele esculpido, enlevo que a latência sonha ser, implosão que desconheço até quando. jângal pelo externo, oásis-me o deserto interior. delinqüe-me esborôa-me seja-me perpetue-me no seguir de cada instante, e antes da florida do cipreste, traga a primavera dos amantes ao par do vento leve que me deste. lua e sol de mim, tal como antes, antes que de mim nada mais reste. Antoniel Campos

beijos...meu EU...

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EU...meu amor. 
Sonha-me tua
Sonha-me, meu ódio-amor, Através do teu sonho volto à vida. Passeia minha sombra e ilusão Pelos mesmos caminhos, os antigos. E sonha-me como se tornasses No fulgor da carne Tua primeira amante proibida Sonha-me um novo sempre Um rosto Isento de crueldades e partidas. Sonha-me tua. Criança e esquecida da experiência humana Hei de voltar à vida. 
O incompossível Colada à tua boca a minha desordem. O meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem. Colada à tua boca, mas descomedida Árdua Construtor de ilusões examino-te sôfrega Como se fosses morrer colado à minha boca. Como se fosse nascer E tu fosses o dia magnânimo Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
Hilda Hilst .

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...poema de uma fruta sagrada, o figo...uma fruta feminina ...sempre sua... meu EU. .

. A maneira correcta de comer um figo à mesa É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo, E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas. Depois põe-se de lado a casca Que é como um cálice quadrissépalo, E colhe-se a flor com os lábios. Mas a maneira vulgar É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne. Cada fruta tem o seu segredo. O figo é uma fruta muito secreta. Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico: Parece masculino. Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina. Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea: A fenda, o yoni, Magnífica via húmida que conduz ao centro. Enredada, Inflectida, Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais; Com um orifício apenas. O figo, a ferradura, a flor da abóbora. Símbolos. Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz; Agora é uma fruta, a matriz madura. Foi sempre um segredo. E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta. Nunca foi evidente, expandida num galho Como outras flores, numa revelação de pétalas; Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana das flores da nespereira e da sorveira, Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos, Clara promessa do paraíso: Ao espinheiro florido! À Revelação! A corajosa, a aventurosa rosácea. Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo, A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta, Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as próprias cabras;Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana, A nudez oculta, a floração para sempre invisível, Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz; Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima, Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta, Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem devassar Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando a alma. Até que a gota da maturidade exsude, E o ano chegue ao fim. O figo guardou muito tempo o seu segredo. Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda. E o figo está completo, fechou-se o ano. Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia. Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo. Assim também morrem as mulheres. Demasiado maduro, esgotou-se o ano, O ano das nossas mulheres. Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres. Foi desvendado o segredo. E em breve tudo estará podre. Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres. Quando no seu espírito Eva soube que estava nua Coseu folhas de figueira para si e para o homem. Sempre estivera nua, Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência. Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira. E desde então as mulheres não pararam de coser. Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto. Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito, E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos. Agora, o segredo Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates Que riem perante a indignação do Senhor. Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres. Muito tempo guardámos o nosso segredo. Somos um figo maduro. Deixa-nos abrir em afirmação. Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam. Os figos maduros não se ocultam. Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul. Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima. Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação? Quando os figos abertos se não ocultarem?
D. H. Lawrence in As Magias versões de Herberto Helder .
...meus beijos são seus...meu EU. .
Besos Hay besos que pronuncian por sí solos la sentencia de amor condenatoria, hay besos que se dan con la mirada hay besos que se dan con la memoria. Hay besos silenciosos, besos nobles hay besos enigmáticos, sinceros hay besos que se dan sólo las almas hay besos por prohibidos, verdaderos. Hay besos que calcinan y que hieren, hay besos que arrebatan los sentidos, hay besos misteriosos que han dejado mil sueños errantes y perdidos. Hay besos problemáticos que encierran una clave que nadie ha descifrado, hay besos que engendran la tragedia cuantas rosas en broche han deshojado. Hay besos perfumados, besos tibios que palpitan en íntimos anhelos, hay besos que en los labios dejan huellas como un campo de sol entre dos hielos. Hay besos que parecen azucenas por sublimes, ingenuos y por puros, hay besos traicioneros y cobardes, hay besos maldecidos y perjuros. Judas besa a Jesús y deja impresa en su rostro de Dios, la felonía, mientras la Magdalena con sus besos fortifica piadosa su agonía. Desde entonces en los besos palpita el amor, la traición y los dolores, en las bodas humanas se parecen a la brisa que juega con las flores. Hay besos que producen desvaríos de amorosa pasión ardiente y loca, tú los conoces bien son besos míos inventados por mí, para tu boca. Besos de llama que en rastro impreso llevan los surcos de un amor vedado, besos de tempestad, salvajes besos que solo nuestros labios han probado. ¿Te acuerdas del primero...? Indefinible; cubrió tu faz de cárdenos sonrojos y en los espasmos de emoción terrible, llenaron sé de lágrimas tus ojos. ¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso te vi celoso imaginando agravios, te suspendí en mis brazos... vibró un beso, y qué viste después...? Sangre en mis labios. Yo te enseñe a besar: los besos fríos son de impasible corazón de roca, yo te enseñé a besar con besos míos inventados por mí, para tu boca.
Gabriela Mistral .

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EU...sempre para você...beijos
É tempo para dizer Se prefiro o teu amor Àqueles, aos doces ares Da minha campina em flor. Tu que projetas e inventas Estruturas ascendentes Tu que conheces melhor As coisas do querer bem (Porque até agora te quis E antes não quis ninguém) Tu, bem o sei, me pressentes.
E mais ainda, me vês Tão perto do querer ser Deste amor sempre contente... Ah, descantares, lamentos.
As leves coisas do tempo Têm seu tempo e seus altares.
É tempo para escolher O anoitecer nas planuras E o contemplar luaceiros E é tempo para calar A história dos meus roteiros.
Paisagem, tu me alimentas De verde, de sol, de amor.
E numa tarde tranquila, Nos longes, seja onde fôr Lembra-te um pouco de mim: Que eu morra olhando as alturas.
E que a chuva no meu rosto Faça crescer tenro caule De flor.( Ainda que obscura)
Hilda Hilst

Não sómente o fogo
Ah, sim, recordo, ai teus olhos fechados como cheios por dentro de luz negra, todo teu corpo como mão aberta, como um cacho de lua todo branco, e o êxtase, quando nos mata um raio, quando um punhal nos fere nas raízes e nos parte uma luz a cabeleira, e quando vamos de novo retornando à vida, como se nós saíssemos do oceano, como se do naufrágio voltássemos feridos por entre as pedras e as vermelhas algas.
Há, porém, outras lembranças, não só as flores do incêndio, também pequenos brotos que de pronto aparecem quando viajo nos trens ou vou nas ruas.
Te vejo lavando os meus lenços, pendurando na janela minhas meias furadas, tua figura em que todo, todo o prazer como uma chamarada caiu sem destruir-te, de novo
Mulher de cada dia, de novo ser humano, humildemente humano, soberbamente pobre, como precisas ser para que sejas não a rápida rosa que a cinza do amor desfaz, porém a vida inteira, a vida toda com sabão e agulhas, com o cheiro que gosto do fogão que talvez nem tenhamos e em que tua mão, entre as batatas fritas, e tua boca cantando no inverno enquanto chega o assado seriam para mim a permanência da felicidade sobre a terra.
Ai, vida minha, não apenas o fogo entre nós arde, mas toda, toda a vida, a simples história, o simples amor de uma mulher e um homem parecidos a todos.
Pablo Neruda

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...meu EU. Tua voz, que sempre me sujeitou aos seus encantos, conservava até nos murmúrios sonoridades tão quentes, acentos tão cheios de ternura que eu chorava de satisfação com a cabeça apoiada ao teu peito. De Héloïse para Abélard - século XII

Na solidão das noites úmidas Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida, Na areia úmida! Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa No ermo da noite que repousa. E era como se a vida, Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida... Mas, ah! como eu sentia A falta de teu ser de volúpia e tristeza! O mar... Onde se via o movimento da água, Era como se a água estremecesse em mil sorrisos. Como uma carne de mulher sob a carícia. O luar era um afago tão suave - Tão imaterial - E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave! O luar era a minha inefável carícia: A água era o teu corpo a estremecer-se com delícia. Ah, em música pôr o que eu não sentia! Unir no espasmo da harmonia Esses dois ritmos contrastantes: O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia E essa grave volúpia da luz branca. Oh, viver contigo! Viver contigo todos os instantes... Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida, Harmoniosamente e pura, Sem lastimar a fuga irreparável dos anos, Dos anos lentos e monótonos que passam, Esperando sempre que maior ventura Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte... Manuel Bandeira
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"...um olhar num livro que amas.Começa assim um dia belo e útil".
Bertold Brech

Sejam Benvindos(as)


A respiração do mar
Errantes as palavras, as janelas, respiração à flor do mar no côncavo da arca, ombro imenso que não encerra, todo o espaço como um só corpo onde o vento começa.
António Ramos Rosa

Gozo II
Desvia o mar a rota do calor e cede a areia ao peso desta rocha Que ao corpo grosso do sol do meu corpo abro-lhe baixo a fenda de uma porta e logo o ventre se curva e adormece e logo as mãos se fecham e encaminham e logo a boca rasga e entontece nos meus flancos a faca e a frescura daquilo que se abre e desfalece enquanto tece o espasmo o seu disfarce e uso do gozo a sua melhor parte
Maria Teresa Horta

Da Solidão
Inquieta chuva, inquieta me dispersa, esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto como se as ervas fossem arrancadas ou se esgotasse a dor por que se chora.
Na grande solidão me basta, e a contemplo para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem sinto o que vem a dormir ou a morrer na mesma angústia que o silêncio envolve.
Maria Alberta Menéres

Volúpia
No divino impudor da mocidade, Nesse êxtase pagão que vence a sorte, Num frémito vibrante de ansiedade, Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade... A nuvem que arrastou o vento norte... - Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço... São os dedos do sol quando te abraço, Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos Vão-te envolvendo em círculos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças...
Florbela Espanca

Corpo de Mar
Em teu corpo, meu amor, pressinto o mar Em volutas de espuma e de rosas, Bonanças que se espraiam preguiçosas, Horizontes que se perdem no olhar.
Sereias mil me beijando ao luar, Medusas que me cingem caprichosas, Ninfas nuas dançando deleitosas Ressacas de volúpia em preia-mar.
E, quando minhas mãos acariciando As ondas que se lançam em frenesim Nas praias do teu ser em descomando,
Um navio as amarras solta em mim, Em águas buliçosas ondulando, Preste se vai por céus e mares sem fim.
Renato Macedo

Un danzar reflejos
Es esta una noche mansa, mansa de estrellas y luna. ¿De donde viene esta paz que inunda mi alma? ¿De que cielo cuelgan mis alas?
El viento sopla en mi espalda con acordes de guitarra y las bandurrias circundan mi mirada. Mis voces nadan, emergen los suspiros sobre el agua y me pierdo, me confundo entre rayos dorados en espesura almidonada en trino de pájaros y en el mágico silencio del abrazo de la montaña.
Su reflejo me besa meciéndome en vaivén de aguas estallando mí pecho al acercar tus dientes y morder mi boca para saciar tú sed.
Y al anocher… tu sombra se desliza como un cometa inyectándome fulgores incandescentes alarga mis alas completa el otro espacio de sortilegios de pétalos rojos de fiesta fecunda y lasciva y en medio del sereno oleaje tu cuerpo y el mío dibujándose.
Mentacalida


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Poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade
***
No mármore de tua bunda
No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio. Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence. Tu a levaste contigo.

A língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta; a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda, e, quanto mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos de leões na floresta, enfurecidos.

Sugar e ser sugado pelo amor
Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca milvalente o corpo dois em um o gozo pleno que não pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa transfusão o lamber o chupar o ser chupado no mesmo espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove vezes boquilíngua.

Não quero ser o último a comer-te
Não quero ser o último a comer-te. Se em tempo não ousei, agora é tarde. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde
em minha boca seca de querer-te, de desejar-te tanto e sem alarde, fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos, e eu covarde
a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala, e chegasses, intata, renascida,
para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante, universal poema.

A bunda, que engraçada
A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora — murmura a bunda — esses garotos ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda redunda.

No corpo feminino, esse retiro
No corpo feminino, esse retiro — a doce bunda — é ainda o que prefiro. A ela, meu mais íntimo suspiro, pois tanto mais a apalpo quanto a miro.
Que tanto mais a quero, se me firo em unhas protestantes, e respiro a brisa dos planetas, no seu giro lento, violento... Então, se ponho e tiro
a mão em concha — a mão, sábio papiro, iluminando o gozo, qual lampiro, ou se, dessedentado, já me estiro,
me penso, me restauro, me confiro, o sentimento da morte eis que o adquiro: de rola, a bunda torna-se vampiro.

Mimosa boca errante
Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te, ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato apaixonados como podes tornar-te, assim aberta, recurvo céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a boca o próprio fruto, e o fruto a boca, oh chega, chega, chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-me.
Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas detêm a mão ansiosa: Devagar. Cada pétala ou sépala seja lentamente acariciada, céu; e a vista pouse, beijo abstrato, antes do beijo ritual, na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça de magnificar meu membro. Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos em posição devota. O que passou não é passado morto. Para sempre e um dia o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás, na total impossibilidade de gesto ou comunicação. Não te vejo não te escuto não te aperto mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Quando desejos outros é que falam
Quando desejos outros é que falam e o rigor do apetite mais se aguça, despetalam-se as pétalas do ânus à lenta introdução do membro longo. Ele avança, recua, e a via estreita vai transformando em dúlcida paragem.
Mulher, dupla mulher, há no teu âmago ocultas melodias ovidianas.

As mulheres gulosas
As mulheres gulosas que chupam picolé — diz um sábio que sabe — são mulheres carentes e o chupam lentamente qual se vara chupassem, e ao chupá-lo já sabem que presto se desfaz na falácia do gozo o picolé fuginte como se esfaz na mente o imaginário pênis.

A castidade com que abria as coxas
A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora brava. Na mansuetude das ovelhas mochas, e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida, sepultura na grama, sem dizeres. Em minha ardente substância esvaída, eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados. Era Adão, primeiro gesto nu ante a primeira negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o mundo, à beira dessa moita orvalhada, nem destino.

De arredio motel em colcha de damasco
De arredio motel em colcha de damasco viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto. A morte, entre nós dois, tinha parte no coito. O brinco era violento, misto de gozo e asco, e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto.

No pequeno museu sentimental
No pequeno museu sentimental os fios de cabelo religados por laços mínimos de fita são tudo que dos montes hoje resta, visitados por mim, montes de Vênus.
Apalpo, acaricio a flora negra, a negra continua, nesse branco total do tempo extinto em que eu, pastor felante, apascentava caracóis perfumados, anéis negros, cobrinhas passionais, junto do espelho que com elas rimava, num clarão.
Os movimentos vivos no pretérito enroscam-se nos fios que me falam de perdidos arquejos renascentes em beijos que da boca deslizavam para o abismo de flores e resinas.
Vou beijando a memória desses beijos.

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
Era bom alisar seu traseiro marmóreo e nele soletrar meu destino completo: paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se em alvos esponsais numa curva infinita.
Era amargo sentir em seu frio traseiro a cor do outro final, a esférica renúncia a toda aspiração de amá-la de outra forma. Só a bunda existia, o resto era miragem.

O que se passa na cama
(O que se passa na cama é segredo de quem ama.) É segredo de quem ama não conhecer pela rama gozo que seja profundo, elaborado na terra e tão fora deste mundo que o corpo, encontrando o corpo e por ele navegando, atinge a paz de outro horto, noutro mundo: paz de morto, nirvana, sono do pênis.
Ai, cama canção de cuna, dorme, menina, nanana, dorme onça suçuarana, dorme cândida vagina, dorme a última sirena ou a penúltima… O pênis dorme, puma, americana fera exausta. Dorme, fulva grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam, entre lençol e cortina ainda úmidos de sêmen, estes segredos de cama.

Amor — pois que é palavra essencial
Amor — pois que é palavra essencial comece esta canção e tudo a envolva. Amor guie o meu verso, e enquanto o guia, Reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no corpo a alma a expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado, Fundido, dissolvido, volta à origem Dos seres, que Platão viu contemplados: é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris, já tudo se transforma, num relâmpago. Em pequenino ponto desse corpo, a fonte, o fogo, o mel se concentram.
Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte que, além de nós, além da própria vida, como ativa abstração que se faz carne, a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras, menos que isto, sons, arquejos, ais, um só espasmo em nós atinge o clímax: é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro, no úmido subterrâneo da vagina, nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses, estendidos na cama, qual estátuas vestidas de suor, agradecendo o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
do meu relógio de não marcar horas

Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho quente morno frio quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam e voam. Meu suplício. Minha mansa onça pintada pulando. Minha saliva minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga. Meu perder-me entre pêlos algas águas ardências. Meu pênis submerso. Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meus gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.

A língua girava no céu da boca
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único. O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-se nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu. Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós. A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

Oh minha senhora Ó minha senhora
Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...

Mulher andando nua pela casa
Mulher andando nua pela casa Envolve a gente de tamanha paz. Não é nudez datada, provocante. É um andar vestida de nudez, Inocência de irmã e copo d'água. O corpo nem sequer é percebido pelo ritmo que o leva. Transmitam curvas em estado de pureza, dando este nome à vida: castidade. Pêlos que fascinavam não perturbam. Seios, nádegas (tácito armistício) Repousam de guerra. Também eu repouso.

A outra porta do prazer
A outra porta do prazer, porta a que se bate suavemente, seu convite é um prazer ferido a fogo e, com isso, muito mais prazer. Amor não é completo se não sabe coisas que só amor pode inventar. Procura o estreio átrio do cubículo aonde não chega a luz, e chega o ardor de insofrida, mordente fome de conhecimento pelo gozo.

A carne é triste depois da felação
A carne é triste depois da felação. Depois do sessenta-e-nove a carne é triste. É areia, o prazer? Não há mais nada após esse tremor? Só esperar outra convulsão, outro prazer tão fundo na aparência mas tão raso na eletricidade do minuto? Já se dilui o orgasmo na lembrança E gosma escorre lentamente de tua vida.

À meia-noite, pelo telefone
À meia-noite, pelo telefone, conta-me que é fulva a mata do seu púbis. Outras notícias do corpo não quer dar, nem de seus gostos. Fecha-se em copas: “Se você não vem depressa até aqui nem eu posso correr à sua casa, que seria de mim até o amanhecer?”
Concordo, calo-me.

Não quero ser o último a comer-te
Não quero ser o último a comer-te. Se em tempo não ousei, agora é tarde. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te, de desejar-te tanto e sem alarde, fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos, e eu covarde a esperar que limpasses toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala, e chegasses, intata, renascida, para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante, universal poema.

Quarto em Desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta derrapei neste amor. Que dor! que pétala sensível e secreta me atormenta e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor na quinta-essência da palavra, e mudo de natural silêncio já não cabe em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui nesse objeto mais vago do que nuvem e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária a esse cavalo solto pela cama a passear o peito de quem ama.

A paixão medida
Trocaica te amei, com ternura dáctila e gesto espondeu. Teus iambos aos meus com força entrelacei. Em dia alcmânico, o instinto ropálico rompeu, leonino, a porta pentâmetra. Gemido trilongo entre breves murmúrios. E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico, senão a quebrada lembrança de latina, de grega, inumerável delícia?

Para o sexo a expirar
Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante. Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo. Amor, amor, amor - o braseiro radiante que me dá pelo orgasmo, a explicação do mundo. Pobre carne sentil, vibrando insastifeita, a minha se rebela ante a morte anunciada. Quero sempre invadir essa vereda estreita onde o gozo maior me propicia a amada. Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe? enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer antes que, deliciosa, a exploração acabe. Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo, e assim possa eu partir, em plenitude o ser, de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

A moça mostrava a coxa
A moça mostrava a coxa a moça mostrava a nádega, só não me mostrava aquilo - concha, berilo, esmeralda - que se entreabre, quatrifólio, e encerra o gozo mais lauto, aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto, porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos, ara sem sangue de ofícios, a moça não me mostrava. E torturando-me, e virgem no desvairado recato que sucedia de chofre à visão dos seios claros, sua pulcra rosa preta como que se enovelava, crespa, intata, inacessível, abre-que-fecha-que-foge, e a fêmea, rindo, negava o que eu tanto lhe pedia, o que devia ser dado e mais que dado, comido. Ai, que a moça me matava tornando-me assim a vida esperança consumida. no que, sombrio, faiscava. Roçava-lhe a perna. Os dedos descobriam-lhe segredos lentos, curvos, animais, porém o máximo arcano, o todo esquivo, noturno, a tríplice chave de urna, essa a louca sonegava, não me daria nem nada. Antes nunca me acenasse. Viver não tinha propósito, andar perdera o sentido, o tempo não desatava nem vinha a morte render-me ao luzir da estrela-d'alva, que nessa hora já primeira, violento, subia o enjôo de fera presa no Zôo. Como lhe sabia a pele, em seu côncavo e convexo, em seu poro, em seu dourado pêlo de ventre mas sexo era segredo de Estado. Como a carne lhe sabia a campo frio, orvalhado, onde uma cobra desperta vai traçando seu desenho num frêmito, lado a lado! mas que perfume teria a gruta invisa? Que visgo, que estreitura, que doçume, que linha prítina, pura, me chamava, me fugia?? Tudo a bela me ofertava, e que eu beijasse ou mordesse, fizesse sangue: fazia. Mas seu púbis recusava. Na noite acesa, no dia, sua coxa se cerrava. Na praia, na ventania, quanto mais eu insistia, sua coxa se apertava. Na mais erma hospedaria fechada por dentro a aldrava, sua coxa se selava, se encerrava, se salvava, e quem disse que eu podia fazer dela minha escrava? De tanto esperar, porfia sem vislumbre de vitória, já seu corpo se delia, já se empana sua glória, já sou diverso daquele que por dentro se rasgava, e não sei agora ao certo se minha sede mais brava era nela que pousava. Outras fontes, outras fomes, outros flancos: vasto mundo, e o esquecimento no fundo. Talvez que a moça hoje em dia... Talvez. O certo é que nunca. E se tanto se furtara com tais fugas e arabescos e tão surda teimosia, por que hoje se abriria? Por que viria ofertar-me quando a noite já vai fria, sua nívea rosa preta nunca por mim visitada, inacessível naveta? Ou nem teria naveta...

Era manhã de setembro
Era manhã de setembro e ela me beijava o membro Aviões e nuvens passavam coros negros rebramiam ela me beijava o membro O meu tempo de menino o meu tempo ainda futuro cruzados floriam junto Ela me beijava o membro Um passarinho cantava, bem dentro da árvore, dentro da terra, de mim, da morte Morte e primavera em rama disputavam-se a água clara água que dobrava a sede Ela me beijava o membro Tudo que eu tivera sido quanto me fora defeso já não formava sentido Somente a rosa crispada o talo ardente, uma flama aquele êxtase na grama Ela me beijava o membro Dos beijos era o mais casto na pureza despojada que é própria das coisas dadas Nem era preito de escrava enrodilhada na sombra mas presente de rainha tornando-se coisa minha circulando-me no sangue e doce e lento e erradio como beijara uma santa no mais divino transporte e num solente arrepio beijava beijava o membro Pensando nos outros homens eu tinha pena de todos aprisionados no mundo Meu império se estendia por toda a praia deserta e a cada sentido alerta Ela me beijava o membro O capítulo do ser o mistério de existir o desencontro de amar eram tudo ondas caladas morrendo num cais longínquo e uma cidade se erguia radiante de pedreiras e de ódios apaziguados e o espasmo vinha na brisa para consigo furtar-me se antes não me desfolhava como um cabelo se alisa e me tornava disperso todo em círculos concêntricos na fumaça do universo Beijava o membro beijava e se morria beijando a renascer em setembro
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