Coisas de LaLi - UOL Blog



meu EU. ...querido...

 


Visión dun corpo na praia


Lábio de luz que treme na nudez
dun astro de brancura.

Movimento delgado
como perfil de auga.

Peixe de lentitude adiviñando o corpo
a sua sílaba húmida,
unha estrela que nace
flor de espuma.

Na ondulación da arxila
corpo solar
que arvorece no espello.
Liña de sede,
semente e sal,
a pel mariña,
e chama do tempo.

Este sopro ou queimazón violácea,
sulco fino da brisa,
a pulsación dos ollos
contra o sol da carne.

Está aqui escrito o exílio do desexo?

A adolescéncia é unha fenda rosada,
suave eclipse,
esbelta auséncia.

Mais agora regresa esa febre
que beixa a lua da boca,
ponto de fuga que arde
no interior dunha máxia
de saliva e de seda.

O salto docísimo dunha lágrima
que avivece insensíbel,
unha rosa de area
que brilla no recordo.

Aparición e signo, corpo
que o instante fai milagre,
espellismo do céu,
revelación dourada
que o mar
estremece no sangue.


Miguel Anxo Fernán-Vello

Beso nocturno


Conozco de la mujer el beso nocturno, espiral
y térreo.
Velocísimo labio
musculado
requema en un abismo de
húmeda luz que adentra.
Oleosa dulzura templando
la sangre más profunda, más láctea
color-de-rosa,
maculada y pura,
acrecentada.
El beso bien nocturno
tiene perfil de serpiente
en ávida lengua,
fluyente y diluida
de simientes lunares,
esencias agridulces
o saladas e hirvientes en el abismo
conocido, en la morada
hendida que evapora un incendio
en las bocas
deslizadas al centro,
masa líquida
recurvada y ansiosa,
destilación convulsa
de inmodulada muerte en eco cenagoso,
cenizas de agua seca
en furias ondulantes,
entretejidas llamas de un gemido
quebrado, dulces ondulaciones
de un estertor de gloria,
animales tan sumergidos
enrojecen en la entraña del
placer dislocado,
instantánea grandeza
del fin en lento fulgor
de bocas fascinadas.
El beso
muerde arcilla espumosa y profunda
de suave quemadura
y florece encarnado
fermentando un ardor pensativo y constante
en los labios calcinados.
Conozco el beso nocturno de la mujer silenciosa,
conozco
los besos oscuros
hasta inflamar las bocas de una pureza extraña,
la delicada muerte de los alientos sin sabia,
sin aurora carnal, lengua de húmedo fuego,
húmeda ceniza pura, húmeda muerte
lenta
hasta la tierra sin mácula,
conozco de la mujer su beso más nocturno
hasta perder los labios consumidos de sueño
sin final ni comienzo.

Miguel Anxo Fernán-Vello

onde estou...

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  Terra e Mar Musicas 



por LaLi




meu EU. ...amor, beijo.

 

Grito erótico

Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos
sem medida


Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta


      Puta
      Puta


Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
      Grito marinho
      a escorrer nas algas
      do meu ventre


      Puta
      Puta.

 Manuela Amaral

 

Pecado mortal

 Poemas eróticos são maliciosos
sensuais e deliciosamente perigosos....
tal como assistir a filmes pornográficos
para acordar monstro hibernando...


Fico a pensar o que busco em ti
enquanto rabisco desejos,
anunciando anseios
ao invés de lascar-te um beijo
e entregar – aos teus carinhos –
meus seios.


Sem rimas fáceis, sem situações previsíveis.
Numa intensa crise corre,
irresistível, meu frisson por ti
incontrolável fúria à tua procura
horas a fio, preenchendo meus
pensamentos...


Meu amor um momento!
Isso é loucura?
Paixão?
Paranóia?
Que situação!
Que confusão de sentimentos...


Quando tiveres a resposta
tu encontraras a mim, completamente
pronta,
tonta de desejo por teu beijo,
por tua pele escura, tintura de meu ventre
que sente
que apenas a ti pertence...


Minha pele está entranhada pelo teu cheiro
caudalosamente banhada por tua língua
que sucumbe a cada investida,
revestida por teu suor
que impregna minha alma...


Não sou uma mulher,
sou parcelas que se juntam
e agregam-se num furacão
que entra em ebulição,
quando tocas cada uma delas:
vagina, orelhas, boca, ancas, pernas, pés e
mãos...


Neste instante,
essas partículas minúsculas,
tornam-se uníssonas.
Transformam-se num conjunto
em busca de delícias
da mais pura e gostosa malícia.


Tu és pastor de um rebanho desgarrado
e só tu tens o poder de torná-lo gregário.
Só tu tens a chave desse universo paralelo
Só tu podes desvendar esse mistério...


De corpo furacão, de mulher ebulição,
de um ser fragmentado em inúmeras personas:
Uma Eva expulsa do paraíso
A agregada mais bonita da Senzala
Uma cortesã em homenagem a cidadão ateniense
Um anjo lascivo, um demônio bandido
Uma princesa enclausurada em torreão
Uma Galla sem Dali


A cometer crimes, a purgar sacrilégios
a pregar teu credo
A sofrer em segredo, este mais cruel degredo
que é estar longe de ti...

Gueixa

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Satânia

...
Nua, de pé, solto o cabelo às costas,
Sorri. Na alcova perfumada e quente,
Pela janela, como um rio enorme
De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis,
Profusamente a luz do meio-dia
Entra e se espalha palpitante e viva.
Entra, parte-se em feixes rutilantes,
Aviva as cores das tapeçarias,
Doura os espelhos e os cristais inflama.
Depois, tremendo, como a arfar, desliza
Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,
Como uma vaga preguiçosa e lenta,
Vem lhe beijar a pequenina ponta
Do pequenino pé macio e branco.
Sobe ... cinge-lhe a perna longamente;
Sobe ... – e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril! – prossegue.
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
E aos mornos beijos, às carícias ternas
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia...
Corre-lhe à flor da pele um calefrio;
Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso
Apressa; e os olhos, pela fenda estreita
Das abaixadas pálpebras radiando,
Turvos, que brados, lânguidos, contemplam,
Fitos no vácuo, uma visão querida...
Talvez ante eles, cintilando ao vivo
Fogo do ocaso, o mar se desenrole:
Tingem-se as águas de um rubor de sangue,
Uma canoa passa... Ao largo oscilam
Mastros enormes, sacudindo as flâmulas...
E, alva e sonora, a murmurar, a espuma
Pelas areias se insinua, o limo
Dos grosseiros cascalhos prateando...
Talvez ante eles, rígidas e imóveis,
Vicem, abrindo os leques, as palmeiras:
Calma em tudo. Nem serpe sorrateira
silva, nem ave inquieta agita as asas.
E a terra dorme num torpor, debaixo
De um céu de bronze que a comprime e estreita...
Talvez as noites tropicais se estendam
Ante eles: infinito firmamento,
Milhões de estrelas sobre as crespas águas
De torrentes caudais, que, esbravejando,
Entre altas serras surdamente rolam...
Ou talvez, em países apartados,
fitem seus olhos uma cena antiga:
Tarde de outono. Uma tristeza imensa
Por tudo. A um lado, à sombra deleitosa
Das tamareiras, meio adormecido,
Fuma um árabe. A fonte rumoreja
Perto. À cabeça o cântaro repleto,
Com as mãos morenas suspendendo a saia,
Uma mulher afasta-se, cantando...
E o árabe dorme numa densa nuvem
De fumo... E o canto perde-se à distância...
E a noite chega, tépida e estrelada...
Certo, bem doce deve ser a cena
Que os seus olhos estáticos ao longe,
Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam.
Há pela alcova, entanto, um murmúrio
De vozes. A princípio é um sopro escasso,
Um sussurrar baixinho... Aumenta logo:
É uma prece, um clamor, um coro imenso
De ardentes vozes, de convulsos gritos.
É a voz da Carne, é a voz da Mocidade,
- Canto vivo de força e de beleza,
Que sobe desse corpo iluminado...
Dizem os braços: “-Quando o instante doce
Há de chegar, em que, à pressão ansiosa
Destes laços de músculos sadios,
Um corpo amado vibrará de gozo?-“
E os seios dizem: “- Que sedentos lábios,
Que ávidos lábios sorverão o vinho
Rubro, que temos nestas cheias taças?
Para essa boca que esperamos, pulsa
Nestas carnes o sangue, enche estas veias,
E entesa e apruma estes rosados bicos...-“
E a boca: “- Eu tenho nesta fina concha
Pérolas níveas do mais alto preço,
E corais mais brilhantes e mais puros
Que a rubra selva que de um tírio manto
Cobre o fundo dos mares da Abissínia...
Ardo e suspiro! Como o dia tarda
Em que meus lábios possam ser beijados,
Mais que beijados: possam ser mordidos-“
...
...
Mas, quando, enfim, das regiões descendo
Que, errante, em sonhos percorreu, Satânia
Olha-se, e vê-se nua, e, estremecendo,
Veste-se, e aos olhos ávidos do dia
Vela os encantos, - essa voz declina
Lenta, abafada, trêmula...
Um barulho
De linhos frescos, de brilhantes sedas
Amarrotadas pelas mãos nervosas,
Enche a alcova, derrama-se nos ares...
E, sob as roupas que a sufocam, inda
Por largo tempo, a soluçar, se escuta
Num longo choro a entrecortada queixa
Das deslumbrantes carnes escondidas...

Olavo Bilac - Sarças de Fogo

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meu EU...nosso amor...

  

em câmara ardente
        
ah a tua boca rubra rútila
aberta e úmida
túmida a tua língua vívida serpente
que se enrosca em minha língua
e desliza em minha pele
em minhas pernas
dentro e entre
abro-me
primeiro às tuas mãos ainda à língua
depois ao falo
vara com que me varas a mim
que súbito te escapo e sôfrega
te busco e te chupo
e viro-me de bruços depois de perecer
por tua espada frente a frente
a ti me ofereço cu e dorso
para que me fodas inteira
e gozo
de ti puta e senhora uma vez mais
mais uma vez de novo e sempre

Marcia Maia

Teus Olhos

Teus olhos me olham longamente, imperiosamente...

de dentro deles teu amor me espia.

Teus olhos me olham numa tortura de alma que quer ser corpo,

de criação que anseia ser criatura

Tua mão contém a minha de momento a momento:

é uma ave aflita meu pensamento na tua mão.

Nada me dizes, porém entra-me a carne a persuasão de que
 
teus dedos criam raízes na minha mão.

Teu olhar abre os braços, de longe, à forma inquieta de meu ser;

abre os braços e enlaça-me toda a alma.

Tem teu mórbido olhar penetrações supremas e sinto,
 
por senti-lo, tal prazer, há nos meus poros tal palpitação,

que me vem a ilusão de que se vai abrir todo meu corpo em poemas.


Gilka Machado

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para vc...EU que amo...

 

Espera


1


A pele anseia o toque, arrepia,

transbordando desejos. Lábios e

língua antecipam o beijo esperado

olhos semicerrados

boca entreaberta

(delírios!)

Sobre os lençóis em desalinho,

ela espera

(seios que se oferecem,

coxas que se contraem)

espera.


O corpo dela exala as secreções

mais belas

ancas de acasalar

(tortura!)

a mão passeia lânguida no lento

passar das horas, como a confortar

pele, púbis, pêlos,

os dedos procuram consolo, não quer

espera.

Ainda que a noite esteja deixando

seus olhos, espera; ainda que o fogo

da lareira se apague, espera.


2


Esta noite quer apenas o homem

que espera, entregar-se a ele,

amá-lo por toda a noite como a

ninguém, antes. Olhá-lo do modo

lindo que inventou,

então espera.


(O desejo a consome, o contato

dos lençóis na pele nua, as mãos

tocando displicentemente os

mamilos à luz amarela e frágil

da lareira que ilumina o corpo

em torturante expectativa)


Guarda-se pare ele. Espera.

Porque seu desejo só se realiza

no desejo dele, na cumplicidade dos dois

fundindo-se, ardentes, executando

o mais belo e primitivo ballet


3


(sôfregos, lindos, dançando

lentos, girando,

bocas, línguas, mãos, suores,

girando

o corpo dela em movimentos

sensuais de amores

ele dentro dela, delírios,

para sempre dentro dela

a alma o corpo, o amor o olhar

lindo que ela inventou

paixão, ternura, naqueles olhos tudo

o corpo dele sobre o dela

o seu beijo

a língua

a pele

as mãos)

imagens que ela inventa

antes de adormecer.

 

Nálu Nogueira

.

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 Terra e Mar Musicas 

"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido amniótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela."

Anais Nin



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Antes que de mim nada mais reste


antes que de mim nada mais reste,
traga-me de volta o que ainda sinto:
uma vontade latejando você;
arfares do nosso último momento
balbucios à luz da meia-luz;
urgências nos desconexos dizeres;
calmas nos sentires, nos tocares
e os risos de nós dois...

 
traga-me   ou melhor   trague-me,
aspire-me, transpire-me,
é só o que te peço:
una-me àquele quando seu.
muito? é muito o que te peço?
ah, é tão pouco ao tanto quanto sinto...

 
rendi-me à relembrança inda recente,
ornamentos que perduram como a palavra
sempre.
abafadiços do frescor de ainda ontem.

 
queimando-me por dentro,
uivando ao desespero,
estou a um passo do que posso,
opresso, ao preço que mereço.

 
mande-me de volta e com urgência
encontre-me por aí
um rastro, que seja, do que eu fui:
baixo-relevo à tua pele esculpido,
enlevo que a latência sonha ser,
implosão que desconheço até quando.

 
jângal pelo externo,
oásis-me o deserto interior.

 
delinqüe-me
esborôa-me
seja-me
perpetue-me no seguir de cada instante,
e antes da florida do cipreste,
traga a primavera dos amantes
ao par do vento leve que me deste.
lua e sol de mim, tal como antes, 
antes que de mim nada mais reste.


Antoniel Campos

beijos...meu EU...

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EU...meu amor.

   

 

Sonha-me tua

Sonha-me, meu ódio-amor,
Através do teu sonho volto à vida.
Passeia minha sombra e ilusão
Pelos mesmos caminhos, os antigos.
E sonha-me como se tornasses
No fulgor da carne
Tua primeira amante proibida

Sonha-me um novo sempre
Um rosto
Isento de crueldades e partidas.
Sonha-me tua.
Criança e esquecida da experiência humana
Hei de voltar à vida.

O incompossível


Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
 

Hilda Hilst

.

   

.

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...poema de uma fruta sagrada, o figo...uma fruta feminina

...sempre sua... meu EU.

.

.

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.
Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.
 
Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.
 
Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.
 
O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.
 
Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.
 
Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.
 
Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana
das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.
 
Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as
próprias cabras;Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
 
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,
Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando
a alma.
 
Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.
 
O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.
 
Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
 
Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.

Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.
Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?


D. H. Lawrence
in As Magias
versões de Herberto Helder

.

 

 

...meus beijos são seus...meu EU.

.

 

 

Besos
 

Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.


Gabriela Mistral

.

.

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por LaLi




EU...sempre para você...beijos

 

É tempo para dizer
Se prefiro o teu amor
Àqueles, aos doces ares
Da minha campina em flor.


Tu que projetas e inventas
Estruturas ascendentes
Tu que conheces melhor
As coisas do querer bem
(Porque até agora te quis
E antes não quis ninguém)
Tu, bem o sei, me pressentes.


E mais ainda, me vês
Tão perto do querer ser
Deste amor sempre contente...
Ah, descantares, lamentos.


As leves coisas do tempo
Têm seu tempo e seus altares.


É tempo para escolher
O anoitecer nas planuras
E o contemplar luaceiros
E é tempo para calar
A história dos meus roteiros.


Paisagem, tu me alimentas
De verde, de sol, de amor.


E numa tarde tranquila,
Nos longes, seja onde fôr
Lembra-te um pouco de mim:
Que eu morra olhando as alturas.


E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor.( Ainda que obscura)

 

Hilda Hilst

 


Não sómente o fogo


Ah, sim, recordo,
ai teus olhos fechados
como cheios por dentro de luz negra,
todo teu corpo como mão aberta,
como um cacho de lua todo branco,
e o êxtase,
quando nos mata um raio,
quando um punhal nos fere nas raízes
e nos parte uma luz a cabeleira,
e quando
vamos de novo
retornando à vida,
como se nós saíssemos do oceano,
como se do naufrágio
voltássemos feridos
por entre as pedras e as vermelhas algas.


Há, porém,
outras lembranças,
não só as flores do incêndio,
também pequenos brotos
que de pronto aparecem
quando viajo nos trens
ou vou nas ruas.


Te vejo
lavando os meus lenços,
pendurando na janela
minhas meias furadas,
tua figura em que todo,
todo o prazer como uma chamarada
caiu sem destruir-te,
de novo


Mulher
 de cada dia,
de novo ser humano,
humildemente humano,
soberbamente pobre,
como precisas ser para que sejas
não a rápida rosa
que a cinza do amor desfaz,
porém a vida  inteira,
a vida toda com sabão e agulhas,
com o cheiro que gosto
do fogão que talvez nem tenhamos
e em que tua mão, entre as batatas fritas,
e tua boca cantando no inverno
enquanto chega o assado
seriam para mim a permanência
da felicidade sobre a terra.


Ai, vida minha,
não apenas o fogo entre nós arde,
mas toda, toda a vida,
a simples história,
o simples amor
de uma mulher e um homem
parecidos a todos.


Pablo Neruda

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"...um olhar num livro que amas.Começa assim um dia belo e útil".

Bertold Brech

Sejam Benvindos(as)

A respiração do mar

Errantes as palavras, as janelas,
respiração à flor do mar no côncavo da arca,
ombro imenso que não encerra, todo o espaço
como um só corpo onde o vento começa.

António Ramos Rosa

Gozo II

Desvia o mar a rota
do calor
e cede a areia ao peso
desta rocha
Que ao corpo grosso
do sol
do meu corpo
abro-lhe baixo a fenda de uma porta
e logo o ventre se curva
e adormece
e logo as mãos se fecham
e encaminham
e logo a boca rasga
e entontece
nos meus flancos
a faca e a frescura
daquilo que se abre e desfalece
enquanto tece o espasmo o seu disfarce
e uso do gozo
a sua melhor parte

Maria Teresa Horta

Da Solidão

Inquieta chuva, inquieta me dispersa,
esquecida a tradição e o cansado som.

Dentro e fora de mim tudo é deserto
como se as ervas fossem arrancadas
ou se esgotasse a dor por que se chora.

Na grande solidão me basta, e a contemplo
para o sonho interior que me resolve!

Tão fácil é esperar, que já nem sinto
o que vem a dormir ou a morrer
na mesma angústia que
o silêncio envolve.

Maria Alberta Menéres

Volúpia

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Florbela Espanca

Corpo de Mar

Em teu corpo, meu amor, pressinto o mar
Em volutas de espuma e de rosas,
Bonanças que se espraiam preguiçosas,
Horizontes que se perdem no olhar.

Sereias mil me beijando ao luar,
Medusas que me cingem caprichosas,
Ninfas nuas dançando deleitosas
Ressacas de volúpia em preia-mar.

E, quando minhas mãos acariciando
As ondas que se lançam em frenesim
Nas praias do teu ser em descomando,

Um navio as amarras solta em mim,
Em águas buliçosas ondulando,
Preste se vai por céus e mares sem fim.

Renato Macedo

Un danzar reflejos

Es esta una noche mansa,
mansa de estrellas y luna.
¿De donde viene esta paz que inunda mi alma?
¿De que cielo cuelgan mis alas?

El viento sopla en mi espalda
con acordes de guitarra
y las bandurrias circundan mi mirada.
Mis voces nadan,
emergen los suspiros sobre el agua
y me pierdo, me confundo
entre rayos dorados
en espesura almidonada
en trino de pájaros
y en el mágico silencio del
abrazo de la montaña.

Su reflejo me besa
meciéndome
en vaivén de aguas
estallando mí pecho
al acercar tus dientes
y morder mi boca
para saciar tú sed.

Y al anocher…
tu sombra se desliza
como un cometa
inyectándome
fulgores incandescentes
alarga mis alas
completa el otro espacio
de sortilegios
de pétalos rojos
de fiesta fecunda y lasciva
y en medio del sereno oleaje
tu cuerpo y el mío
dibujándose.

Mentacalida

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Poemas eróticos
de
Carlos Drummond de Andrade

***

No mármore de tua bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,

entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

Não quero ser o último a comer-te

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.

A bunda, que engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro
— a doce bunda — é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha — a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

Mimosa boca errante

Mimosa boca errante
à superfície até achar o ponto
em que te apraz colher o fruto em fogo
que não será comido mas fruído
até se lhe esgotar o sumo cálido
e ele deixar-te, ou o deixares, flácido,
mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.

Boca mimosa e sábia,
impaciente de sugar e clausurar
inteiro, em ti, o talo rígido
mas varado de gozo ao confinar-se
no limitado espaço que ofereces
a seu volume e jato apaixonados
como podes tornar-te, assim aberta,
recurvo céu infindo e sepultura?

Mimosa boca e santa,
que devagar vais desfolhando a líquida
espuma do prazer em rito mudo,
lenta-lambente-lambilusamente
ligada à forma ereta qual se fossem
a boca o próprio fruto, e o fruto a boca,
oh chega, chega, chega de beber-me,
de matar-me, e, na morte, de viver-me.

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas

Em teu crespo jardim, anêmonas castanhas
detêm a mão ansiosa: Devagar.
Cada pétala ou sépala seja lentamente
acariciada, céu; e a vista pouse,
beijo abstrato, antes do beijo ritual,
na flora pubescente, amor; e tudo é sagrado.

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.

Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.

Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Quando desejos outros é que falam

Quando desejos outros é que falam
e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

As mulheres gulosas

As mulheres gulosas
que chupam picolé
— diz um sábio que sabe —
são mulheres carentes
e o chupam lentamente
qual se vara chupassem,
e ao chupá-lo já sabem
que presto se desfaz
na falácia do gozo
o picolé fuginte
como se esfaz na mente
o imaginário pênis.

A castidade com que abria as coxas

A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,
primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.

De arredio motel em colcha de damasco

De arredio motel em colcha de damasco
viste em mim teu pai morto, e brincamos de incesto.
A morte, entre nós dois, tinha parte no coito.
O brinco era violento, misto de gozo e asco,
e nunca mais, depois, nos fitamos no rosto.

No pequeno museu sentimental

No pequeno museu sentimental
os fios de cabelo religados
por laços mínimos de fita
são tudo que dos montes hoje resta,
visitados por mim, montes de Vênus.

Apalpo, acaricio a flora negra,
a negra continua, nesse branco
total do tempo extinto
em que eu, pastor felante, apascentava
caracóis perfumados, anéis negros,
cobrinhas passionais, junto do espelho
que com elas rimava, num clarão.

Os movimentos vivos no pretérito
enroscam-se nos fios que me falam
de perdidos arquejos renascentes
em beijos que da boca deslizavam
para o abismo de flores e resinas.

Vou beijando a memória desses beijos.

Era bom alisar seu traseiro marmóreo

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.

Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor do outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.

O que se passa na cama

(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)
É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.

Amor — pois que é palavra essencial

Amor — pois que é palavra essencial
comece esta canção e tudo a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
Reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma a expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
Fundido, dissolvido, volta à origem
Dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o clímax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

do meu relógio de não marcar horas

Você meu mundo meu relógio de não marcar horas; de esquecê-las. Você meu
andar meu ar meu comer meu descomer. Minha paz de espadas acesas. Meu
sono festival meu acordar entre girândolas. Meu banho quente morno frio
quente pelando. Minha pele total. Minhas unhas afiadas aceradas
aciduladas. Meu sabor de veneno. Minhas cartas marcadas que se desmarcam
e voam. Meu suplício. Minha mansa onça pintada pulando. Minha saliva
minha língua passeadeira possessiva meu esfregar de barriga em barriga.
Meu perder-me entre pêlos algas águas ardências. Meu pênis submerso.
Túnel cova cova cova cada vez mais funda estreita mais mais. Meus
gemidos gritos uivos guais guinchos miados ofegos ah oh ai ui nhem ahah
minha evaporação meu suicídio gozoso glorioso.

A língua girava no céu da boca

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único. O
sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-se nos seus traços
de cobre. Eu, ela, elaeu. Os dois nos movíamos possuídos, trespassados,
eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava.
Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no
espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.
A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à
consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

Oh minha senhora
Ó minha senhora

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não
faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha
senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem
mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me
desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é
verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado
para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlego sem
saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do
desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu
eu ó minha senh... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos
essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza
louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...

Mulher andando nua pela casa

Mulher andando nua pela casa
Envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
Inocência de irmã e copo d'água.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transmitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
Repousam de guerra. Também eu repouso.

A outra porta do prazer

A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.
Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreio átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente
fome de conhecimento pelo gozo.

A carne é triste depois da felação

A carne é triste depois da felação.
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
após esse tremor? Só esperar
outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já se dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida.

À meia-noite, pelo telefone

À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do seu púbis.
Outras notícias
do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
“Se você não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?”

Concordo, calo-me.

Não quero ser o último a comer-te

Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde
em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde
a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,
para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.

Quarto em Desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?

Para o sexo a expirar

Para o sexo a expirar, eu me volto, expirante.
Raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor - o braseiro radiante
que me dá pelo orgasmo, a explicação do mundo.
Pobre carne sentil, vibrando insastifeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo, quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sêmen aljofrando o irreparável ermo.

A moça mostrava a coxa

A moça mostrava a coxa
a moça mostrava a nádega,
só não me mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
a moça não me mostrava.
E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
à visão dos seios claros,
sua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.
Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida.
no que, sombrio, faiscava.
Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o máximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.
Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-d'alva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjôo
de fera presa no Zôo.
Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre mas sexo
era segredo de Estado.
Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!
mas que perfume teria
a gruta invisa? Que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prítina, pura,
me chamava, me fugia??
Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.
Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quanto mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?
De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.
Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...

Era manhã de setembro

Era manhã de setembro e
ela me beijava o membro
Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro
O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto
Ela me beijava o membro
Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte
Morte e primavera em rama
disputavam-se a água clara
água que dobrava a sede
Ela me beijava o membro
Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido
Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama
Ela me beijava o membro
Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas
Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha
tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio
como beijara uma santa
no mais divino transporte
e num solente arrepio
beijava beijava o membro
Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo
Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta
Ela me beijava o membro
O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar
eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longínquo
e uma cidade se erguia
radiante de pedreiras
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa
para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa
e me tornava disperso
todo em círculos concêntricos
na fumaça do universo
Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro

.....................