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°Coisas de £å£i°


01/07/2007


Para te esperar

"Não lavei os seios
pois tinham o calor
da tua mão.
Não lavei as mãos
pois tinham os sons
do teu corpo.
Não lavei o corpo
pois tinha os rastros
dos teus gestos;
tinha também, o meu corpo,
a sagrada profanação
do teu olhar
que não lavei.
Nem aqueles lençóis,
não os lavei,
nem os espelhos,
que continuam
onde sempre estiveram:
porque eles nos viram
cúmplices, e a paixão,
no paraíso,
parece que era.
Lavei, sim,
lavei e perfumei
a alma, em jasmim,
que é tua, só tua,
para te esperar
como se nunca tivesses ido
a nenhum lugar:
donde apaguei
todas as ausências
que apaguei
ao teu olhar."

Soares Feitosa

A Canção Desesperada

Tua lembrança emerge desta noite em que estou.
O rio e o mar enlaçam seu lamento obstinado.

Abandonado como um cais na madrugada.
É a hora de partir, oh abandonado!

Sobre o meu coração chovem frias corolas.
Oh sentina de escombros, feroz gruta de náufragos!

Em ti se acumulam os voos e as guerras.
De ti ergueram asas os pássaros do canto.

Tu devoraste tudo, qual devora a distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!

Era a hora ditosa do assalto e do beijo.
Era a hora do êxtase que ardia como um facho.

Uma ânsia de piloto ou de mergulhador cego,
turva embriaguez de amor, tudo em ti foi naufrágio!

Na infância de névoa, minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufráfio!

Tu cingiste-te à dor, prendeste-te ao desejo.
Derrubou-te a tristeza, tudo em ti foi naufrágio!

Fiz recua então a muralha de sombra,
caminhei para além do desejo e do acto.

Oh carne, carne minha, ó amada que perdi,
a ti nesta hora húmida evoco e torno cântico.

Como um vaso guardaste a infinita ternura
e o infinito olvido partiu-te como um vaso.

Era a solidão, solidão negra das ilhas,
e ali, mulher de amor, me acolheram teus braços.

Era a seda e a fome, e então foste os frutos.
Era a dor e as ruínas e tu foste o milagre.

Ah, mulher, eu não sei como pudeste conter-me
na terra da tua alma e na cruz dos teus braços!

Meu desejo de ti foi terrível e breve,
o mais revolto e ébrio, o mais tenso e mais ávido.

Cemitério de beijos, ainda há fogo em teus túmulos,
ainda os cachos ardem picados pelos pássaros.

Oh boca mordida, oh membros beijados,

oh os famintos dentes, os corpos entrançados!

Oh a cópula louca de esperança e esforço
em que ambos nos atamos e nos desesperamos.

E a ternura, suave como a água e a farinha.
E a palavra que mal começava nos lábios.

Esse foi meu destino, nele singrou minha ânsia,
nele caiu minha ânsia, tudo em ti foi naufrágio!

Oh sentina de escombros, em ti tudo caía,
que dor não exprimiste, que ondas não te afogaram!

De queda em queda ainda chamejaste e cantaste.
De pé como um marujo sobre a proa de um barco.

Floresceste ainda em cantos e brotaste em correntes.
Oh sentina de escombros, poço aberto e amargo.

Mergulhador cego e pálido, derrotado e fundeiro,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!

É a hora de partir, a hora dura e fria
com que a noite domina todo o horário.

O cinturão ruidoso do mar abraça a costa.
Surgem frias estrelas, emigram negros pássaros.

Abandonado como um cais na madrugada.
Somente a sombra trémula se torce em minhas mãos.

Ah, para além de tudo! Ah, para além de tudo!

É a hora de partir. Oh abandonado!

Pablo Neruda

Post de £å£i às 19h45
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