
Gozo I Linho dos ombros ao tacto já tecido Túnica branda cingida sobre as espáduas Os rins despidos no fato já subido: as tuas mãos abrindo a madrugada Linho dos seios na roca dos sentidos a seda lenta sedenta na garganta a lã da boca cardada no gemido e nos joelhos a sede que os abranda Linho das ancas bordado de torpor a boca espessa o fuso da garganta Gozo II
Desvia o mar a rota do calor e cede a areia ao peso desta rocha Que ao corpo grosso do sol do meu corpo abro-lhe baixo a fenda de uma porta e logo o ventre se curva e adormece e logo as mãos se fecham e encaminham e logo a boca rasga e entontece nos meus flancos a faca e a frescura daquilo que se abre e desfalece enquanto tece o espasmo o seu disfarce e uso do gozo a sua melhor parte Gozo III
Põe meu amor teu preceito teu pénis meu pão tão cedo de vestir e de enfeitar espasmos tomados por dentro e guarnecer o deitar daquilo que vou gemendo Meu amor por me habitares com jeito de teu invento ou com raiva de gritares quando te monto e me fendo Gozo IV
Que tenhas de mim o contorno incerto acertado nas linhas do teu corpo os dentes nos lóbulos e no pescoço os lábios a língua a cobrirem os ombros Gozo V
Vigilante a crueldade no meu ventre A fenda atenta e voraz que devora o que é dormente a febre que a boca empresta a vela que empurra o vento a vara que fende a carne a crueldade que entende o grito sobre o orgasmo que me prende e me desprende Gozo VI
São de bronze os palácios do teu sangue de cristal absorto encimesmado São de esperma os rubis que tens no corpo a crescerem-te no ventre ao acaso São de vento – são de vidro são de vinho os liquidos silencios dos teus olhos as rutilas esmeraldas que sózinhas ferem de verde aquilo que tu escolhes São cintilantes grutas que germinam na obscura teia dos teus lábios o hálito das mãos a língua – as veias São de cupulas crisálidas são de areia São de brandas catedrais que desnorteiam (São de cupulas crisálidas são de areia) na minha vulva o gosto dos teus espasmos Gozo VII
São as tuas nádegas na curva dos meus dedos as tuas pernas atentas e curvadas O cravo – o crivo sabor da madrugada no manso odor do mar das tuas espáduas E se soergo com as mãos as tuas coxas e acerto o corpo no calor das vagas logo me vergas e és tu então que tens os dedos agora em minha nádegas Gozo VIII
Em cada canal a sua veia o veio que entumesce no fundo da sua teia Em cada vento o seu peixe no tempo que a água tenha sedosa na sua sede viciosa em sua esteira Da seda o tacto e o suco dos lábios à sua beira como se fosse um beiral do corpo p'ra língua inteira ou o lugar para guardar o punhal que se queira Em cada punho o seu ócio um cinzel de lisura com a doçura do pranto da prata e bronze a secura O travesseiro não apoia as pernas já afastadas mas ajusta as ancas dadas Escalada que se empreende na pele das tuas nádegas Em cada corpo há o tempo no gozo da sua adaga Mas só no teu há o espasmo com que o teu pénis me alaga Gozo IX
Ondula mansamente a tua língua de saliva tirando toda a roupa... já breves vêm os dias dentro de noites já poucas. Que resta do nosso gozo se parares de me beijar? Oh meu amor... devagar... até que eu fique louca! Depois... não vejas o mar afogado em minha boca! Gozo X
São de alumínio os flancos e de feltro a língua de felpa ou seda a abertura incerta que cede breve a humidade esguia presa no quente do interior da pedra Ou musgo doce de haste sempre dura de onde pendem seus dois mansos frutos que a boca aflora e os dentes prendem a tatear-lhes o hálito e o suco Gozo XI Conduzes na saliva um candelabro aceso um chicote de gozo nas palavras E a seda do meu corpo já te cede neste odor de borco em que me abres Sedenta e sequiosa vou sabendo a demorar o tempo que se espraia ao longo dos flancos que vou tendo: as tuas pernas vezes teu ventre A tua língua vezes os teus dentes na pressa veloz com que me rasgas Gozo XII
São tuas as pálpebras dos meus dias tal como a laranja do lago estagnado é a lua do lago ao meio dia quando o sol dos ombros está rasgado São teus os cílios que as noites utilizam é tua a saliva dos meus braços é teu o cacto que no ventre incerto debruça levar os seus orgasmos Não tenho mais que te dizer das coisas que tudo o mais te faço eu deitada enquanto sentes que o teu corpo cresce por dentro do mundo na minha mão fechada Maria Teresa Horta * ...meu Eu...bjus Sua 
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por LaLi
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