
"...um olhar num livro que amas.Começa assim um dia belo e útil".
Bertold Brech

Sejam Benvindos(as)

A respiração do mar
Errantes as palavras, as janelas, respiração à flor do mar no côncavo da arca, ombro imenso que não encerra, todo o espaço como um só corpo onde o vento começa.
António Ramos Rosa

Gozo II
Desvia o mar a rota do calor e cede a areia ao peso desta rocha Que ao corpo grosso do sol do meu corpo abro-lhe baixo a fenda de uma porta e logo o ventre se curva e adormece e logo as mãos se fecham e encaminham e logo a boca rasga e entontece nos meus flancos a faca e a frescura daquilo que se abre e desfalece enquanto tece o espasmo o seu disfarce e uso do gozo a sua melhor parte
Maria Teresa Horta

Da Solidão
Inquieta chuva, inquieta me dispersa, esquecida a tradição e o cansado som.
Dentro e fora de mim tudo é deserto como se as ervas fossem arrancadas ou se esgotasse a dor por que se chora.
Na grande solidão me basta, e a contemplo para o sonho interior que me resolve!
Tão fácil é esperar, que já nem sinto o que vem a dormir ou a morrer na mesma angústia que o silêncio envolve.
Maria Alberta Menéres

Volúpia
No divino impudor da mocidade, Nesse êxtase pagão que vence a sorte, Num frémito vibrante de ansiedade, Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade... A nuvem que arrastou o vento norte... - Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço... São os dedos do sol quando te abraço, Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos Vão-te envolvendo em círculos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças...
Florbela Espanca

Corpo de Mar
Em teu corpo, meu amor, pressinto o mar Em volutas de espuma e de rosas, Bonanças que se espraiam preguiçosas, Horizontes que se perdem no olhar.
Sereias mil me beijando ao luar, Medusas que me cingem caprichosas, Ninfas nuas dançando deleitosas Ressacas de volúpia em preia-mar.
E, quando minhas mãos acariciando As ondas que se lançam em frenesim Nas praias do teu ser em descomando,
Um navio as amarras solta em mim, Em águas buliçosas ondulando, Preste se vai por céus e mares sem fim.
Renato Macedo

Un danzar reflejos
Es esta una noche mansa, mansa de estrellas y luna. ¿De donde viene esta paz que inunda mi alma? ¿De que cielo cuelgan mis alas?
El viento sopla en mi espalda con acordes de guitarra y las bandurrias circundan mi mirada. Mis voces nadan, emergen los suspiros sobre el agua y me pierdo, me confundo entre rayos dorados en espesura almidonada en trino de pájaros y en el mágico silencio del abrazo de la montaña.
Su reflejo me besa meciéndome en vaivén de aguas estallando mí pecho al acercar tus dientes y morder mi boca para saciar tú sed.
Y al anocher… tu sombra se desliza como un cometa inyectándome fulgores incandescentes alarga mis alas completa el otro espacio de sortilegios de pétalos rojos de fiesta fecunda y lasciva y en medio del sereno oleaje tu cuerpo y el mío dibujándose.
Mentacalida


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